quinta-feira, 3 de março de 2011

Opinião do vice presidente de futebol Roberto Sigmann sobre a reforma do Beira rio

Roberto Sigmann publicou terça feira em seu Blog Oficial
sua opinião sobre as obras do Beira rio, leia o texto abaixo



Com certeza alguns dirão que eu deveria estar me dedicando somente com o futebol e não com questões relacionadas com obras do Beira-Rio. É verdade, sou o primeiro a reconhecer que a minha energia deve estar canalizada unicamente para o futebol. Mas não está e por razões óbvias, pois na minha função devo defender o futebol como atividade preponderante do nosso Clube.

Tenho um compromisso que assumi ao decidir discutir, dentro do possível e no espaço público, as questões relacionadas com a direção de futebol do Clube. Por que faço isso?
Por dois motivos, dos quais não abro mão. O primeiro diz respeito à repercussão do futebol. Imagino que, sendo o mais transparente possível, evito uma série de coisas que, via de regra, recaem sobre aqueles que assumem posições de interesse público. Sei muito bem como é isso, pois na minha atividade profissional, que é pública, já estou acostumado com o controle social. Ele é fundamental e deveria estar presente em nosso país há muito mais tempo e de forma mais difusa.O segundo, em específico, é com relação à magnitude do momento: com a história. Sim, com a história do nosso centenário INTERNACIONAL.

Passemos aos fatos:

A escolha do Beira-Rio para ser uma das sedes do mundial de 2014, foi festejada por todos nós, com a divulgação do slogan “A Copa é Nossa”.A partir de então, começaram uma série de investidas para que em Porto Alegre o outro estádio, que está em construção nas cercanias do aeroporto, também fosse contemplado com a Copa.

Algumas fragilidades do nosso modelo inicial, especialmente do suporte financeiro, estruturado na venda de suítes para enfrentar os custos da construção, foram, desde o primeiro momento, rechaçados pela FIFA. A FIFA passou a exigir do INTER garantias bancárias para a construção. Elas não foram obtidas.Tínhamos, como sustentação do modelo, arcando diretamente com as despesas das obras, o resultado da venda dos Eucaliptos e a projetada e imaginária arrecadação com a venda de suítes, camarotes e cadeiras.

Objetivamente, embora já iniciadas as obras, vendemos em torno de vinte e seis suítes, sendo que destas, dezesseis migraram das já existentes, anteriormente comercializadas.
Diante disso, inclusive das variações do orçamento inicialmente apresentado, de cento e cinqüenta milhões, o presidente Giovanni Luigi, de forma responsável e atenta, retomou a discussão acerca do modelo adotado e os seus riscos. Não poderia ele arcar com a indelével e histórica responsabilização pela perda da Copa ou pelo colapso do modelo de realização das obras.

Em síntese, só há duas hipóteses: ou arcamos com o custo total da obra e, para manter a Copa no Beira-Rio, realizamos um empréstimo bancário de aproximadamente cem milhões de reais ou estabelecemos uma parceria com uma construtora que, sozinha, em troca da exploração das receitas advindas e por determinado tempo, arca com a totalidade do custo, no modelo PREÇO FECHADO.

Pois bem, quando se intensifica o debate, alcançado ele a mídia, verifico, com todo o respeito às demais opiniões que, em boa parcela, ele remete a dogmas.

Quando conheci o Beira-rio, lá pelos meus dez anos de idade, fiquei espantado com a obra. Ganhamos espaço onde antes havia água, erguemos um dos maiores e mais modernos estádios do mundo e tudo com as nossas próprias forças e recursos, especial e meritoriamente dos torcedores. Contextualizando, o mundo era de um jeito e a economia também. Andava-se de bonde em Porto Alegre, à época conhecíamos todos os grandes empreendedores locais, o mundo ainda não havia sofrido os efeitos da chamada globalização.

Hoje, tudo está diferente. O mundo mudou. Os grandes negócios são reservados às grandes empresas multinacionais, os preços são internacionalmente estabelecidos e o futebol deixou de lado o romantismo para assumir o viés do realismo financeiro.

Em nenhum lugar do mundo estádios são construídos com os esforços de antes. Há, também, questões mercadológicas, pois os investimentos na compra de suítes, camarotes e cadeiras, estão mais restritos. As empresas sofrem rigorosos controles de gastos, os investimentos são restritos e as pessoas se deparam com enormes dificuldades para a subsistência pessoal e familiar.

Concretamente, quais os riscos que temos pela frente? O primeiro é o de, ao insistir no modelo atual de obras com recursos próprios, perder o Beira-Rio como sede da Copa. Risco que está afastado com a parceria de uma grande construtora. Este risco é quase que imediato. O segundo é o de contrairmos um empréstimo vultuoso, contando com receitas incertas, eis que assumiríamos direta e totalmente o risco integral do negócio. Um empréstimo na proporção do que é acenado significaria um desencaixe mensal de mais de um milhão de reais. O terceiro, para mim o mais significativo, é o da pulverização de nossas energias. A meu modesto juízo, a exemplo do que ocorre nos demais grandes clubes no mundo todo, o Internacional deve concentrar toda a sua força gerencial no futebol, atividade fim, no marketing, atividade resultante e no relacionamento com o quadro social.

A lógica da manutenção do atual modelo de obras, segundo os seus defensores, encontraria justificativa em apenas um aspecto – estaríamos abrindo mão de receitas futuras. Esclareça-se receitas que não temos, inexistentes. Receitas que retornarão ao Clube, integralmente, após algum tempo.

Seria como, se ao fazer um negócio com alguém, estivéssemos mais focados nos resultados a ser obtidos pelo parceiro do que nas facilidades e resultados a nós destinados. Alguém tem dúvida de que para incrementar um negócio na sua integralidade é necessário tempo, experiência, investimentos publicitários etc?

Vejamos, por exemplo, a realidade da maioria dos shoppings de Porto Alegre, e o tempo necessário para que se firmem como bons negócios. No caso estamos falando de empreendimentos que contemplam especialistas no setor.Quais foram as atividades secundárias, como lojas, que deram resultados satisfatórios ao Clube?

Pelo que lembro, tivemos a Churrascaria Saci, o Barril, o Gato do Alemão, enfim, locações diretas e que criaram mais problemas do que soluções financeiras.

O que dizer, ainda, do largo tempo que resultou da inércia quanto a uma destinação ao Estádio dos Eucaliptos? Inúmeras ocupações irregulares, invasões, deterioração e locatários inadimplentes.Administrar o que não conhecemos é sempre problemático, desvia o nosso foco e compromete o nosso futuro.

Em síntese, abro o meu voto!

Sou, diante das circunstâncias que não permitem mais dispêndio de tempo, a favor da parceria com uma grande construtora.

Na proposta da construtora a ser apreciada pelo Conselho Deliberativo, há a inclusão de um Centro de Treinamentos para o futebol, exigência da modernidade e necessidade para aprimorar nossa principal atividade. Deixemos bares, lojas, restaurantes, estacionamentos, hotéis, etc., para quem entende do ramo. O que queremos é um futebol competitivo, ganhador de títulos e cada vez mais conforto para os nossos torcedores.

Não desejo perder a Copa para o nosso adversário, depois de festejada a conquista e nem comprometer o nosso futuro no futebol, razão maior de toda a nossa existência!

Inspirado em Hammlet: endividar ou não, eis a questão!

Roberto Siegmann, Conselheiro do Sport Club Internacional há 24 anos, e atual Vice-Presidente de Futebol.

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